O que sabemos sobre a segurança dos aditivos e excipientes utilizados nos suplementos alimentares? Será que a presença de determinados ingredientes representa um risco para a saúde?
Neste artigo, explicamos como avaliar a segurança destes ingredientes, a diferença entre perigo e risco e o que os estudos científicos nos podem dizer. Analisamos a evidência disponível sobre ingredientes como o dióxido de titânio, a maltodextrina, o sorbitol e a sucralose, bem como sobre alguns excipientes comuns, para ajudar a interpretar os rótulos e a fazer escolhas mais informadas.
1. O que determina a segurança de um ingrediente?
A segurança de um ingrediente não deve ser avaliada apenas pelo seu nome ou pela sua presença no rótulo. É importante considerar vários fatores:
- A dose: a quantidade ingerida pode influenciar os efeitos de uma substância.
- A frequência e a duração do consumo: a exposição ocasional não é necessariamente equivalente ao consumo diário prolongado.
- A exposição total: importa considerar as quantidades provenientes de diferentes alimentos, suplementos e outras fontes.
- As características individuais: a tolerância pode variar, nomeadamente em pessoas com sensibilidade gastrointestinal ou determinadas alergias.
- A qualidade da evidência científica: os resultados de estudos laboratoriais ou em animais não podem ser automaticamente extrapolados para seres humanos.
Identificar um possível efeito biológico não significa, necessariamente, demonstrar um risco para a saúde nas condições habituais de utilização.
2. Qual é a diferença entre perigo e risco para a saúde?
Perigo é a capacidade de uma substância provocar um efeito prejudicial em determinadas condições.
Risco é a probabilidade de esse efeito ocorrer nas condições reais de exposição, tendo em conta fatores como a dose e a duração do consumo.
Exemplo prático: uma substância pode provocar efeitos prejudiciais em laboratório quando testada em doses elevadas. Isso não significa que a pequena quantidade utilizada num suplemento represente o mesmo risco. Para avaliar o risco real, é necessário considerar a exposição e a evidência científica disponível.
3. Como interpretar os estudos científicos?
Os diferentes tipos de estudos fornecem informações complementares. Nenhum deve ser interpretado isoladamente.
| Tipo de evidência | O que nos pode indicar |
|---|---|
| Estudos laboratoriais (in vitro) | Identificam possíveis efeitos biológicos e mecanismos que merecem investigação. |
| Estudos em animais | Fornecem informações sobre efeitos biológicos, mas os resultados podem não ser diretamente aplicáveis aos seres humanos. |
| Estudos em seres humanos | Investigam efeitos nas pessoas, embora os resultados dependam do desenho do estudo, da dose e das características dos participantes. |
| Revisões sistemáticas e avaliações regulamentares | Analisam vários estudos para avaliar a consistência, a qualidade e as limitações da evidência disponível. |
4. Ter um número E significa que um ingrediente é prejudicial?
Não. Os números E identificam aditivos alimentares na nomenclatura da União Europeia. A sua presença no rótulo não significa, por si só, que um produto seja perigoso ou de baixa qualidade.
A utilização de um aditivo depende das condições autorizadas, incluindo os alimentos em que pode ser utilizado e os níveis permitidos. A autorização não significa, contudo, que todos os produtos que o contêm sejam igualmente adequados para todas as pessoas.
É importante distinguir entre ingredientes com preocupações de segurança identificadas, ingredientes que podem causar efeitos indesejáveis em determinadas doses ou pessoas e ingredientes cujas avaliações de segurança são tranquilizadoras nas condições consideradas.
Importa ainda lembrar que nem todos os excipientes são aditivos alimentares ou têm um número E.
5. Que ingredientes levantam questões de segurança?
A. Dióxido de titânio (E171)
Principal preocupação: potencial genotoxicidade.
Em 2021, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) concluiu que não era possível excluir preocupações relacionadas com a genotoxicidade do dióxido de titânio. Na sequência desta avaliação, a Comissão Europeia retirou a autorização para a sua utilização como aditivo alimentar, incluindo nos suplementos alimentares, através do Regulamento (UE) 2022/63 (1).
B. Maltodextrina
Potencial preocupação: possíveis efeitos na fisiologia intestinal.
A maltodextrina é um hidrato de carbono utilizado como agente de volume ou ingrediente auxiliar. Uma revisão sistemática de 2022 analisou ensaios clínicos em que foi utilizada como placebo e identificou indícios de possíveis alterações em parâmetros da fisiologia intestinal. Contudo, os estudos diferiam nas doses, na duração e nas populações estudadas, pelo que os resultados devem ser interpretados com cautela (2).
Estes resultados não demonstram que as quantidades habitualmente utilizadas como excipiente nos suplementos causem doenças intestinais.
C. Sorbitol
Potencial preocupação: sintomas gastrointestinais, sobretudo em pessoas sensíveis.
O sorbitol é um poliol utilizado como edulcorante e agente de volume. A sua absorção incompleta pode atrair água para o intestino e provocar inchaço abdominal, flatulência, desconforto e diarreia, dependendo da dose e da sensibilidade individual. Uma revisão sistemática de 2017 analisou os efeitos dos polióis na saúde gastrointestinal, incluindo em pessoas com síndrome do intestino irritável (SII) (3).
O sorbitol não é intrinsecamente tóxico, mas a quantidade consumida é relevante, sobretudo para pessoas com sensibilidade digestiva.
D. Sucralose
Potencial preocupação: possíveis efeitos na microbiota intestinal e no metabolismo da glicose.
A sucralose é um edulcorante utilizado em alguns suplementos. Estudos em seres humanos identificaram possíveis alterações na microbiota intestinal e nas respostas à glicose e à insulina, mas os resultados variam e a relevância clínica permanece incerta (4, 5).
Um estudo laboratorial de 2024 também identificou alterações na microbiota após exposição a vários aditivos alimentares, incluindo a sucralose. Estes resultados não demonstram que o consumo de suplementos com sucralose provoque doenças intestinais (6).
6. E quanto aos excipientes mais comuns?
A presença de um excipiente não significa, por si só, que um suplemento seja de baixa qualidade ou represente um risco para a saúde.
Celulose microcristalina (E460(i))
Utilizada como agente de volume e para dar estrutura aos comprimidos, foi reavaliada pela EFSA em 2018. A avaliação não identificou preocupações de segurança nas utilizações e níveis de exposição comunicados (7).
Estearato de magnésio (E470b)
O estearato de magnésio é utilizado como lubrificante no fabrico de comprimidos e cápsulas. A EFSA não identificou preocupações de segurança para os sais de magnésio de ácidos gordos (E470b) nas utilizações e níveis de exposição avaliados (8). Um estudo de Hobbs et al. também não identificou potencial genotóxico nos testes realizados (9).
Estes resultados são tranquilizadores, embora não permitam concluir que todos os possíveis efeitos estejam totalmente esclarecidos.
Dióxido de silício (E551)
Utilizado como antiaglomerante para evitar a formação de grumos nos pós, foi reavaliado pela EFSA em 2024. A avaliação não identificou preocupações de segurança nas utilizações e níveis de exposição alimentar avaliados, embora tenham sido assinaladas limitações nos dados relativos a determinadas características das partículas (10).
7. E quanto às cápsulas de gelatina e HPMC?
A gelatina, de origem animal, e a hidroxipropilmetilcelulose (HPMC), derivada da celulose, são materiais utilizados no fabrico de cápsulas.
As cápsulas de gelatina não são adequadas a veganos e podem não ser adequadas a alguns vegetarianos. As cápsulas de HPMC são geralmente adequadas a dietas vegetarianas e veganas, embora a adequação do produto completo dependa também dos restantes ingredientes.
A escolha entre ambas não indica, por si só, diferenças na segurança ou qualidade do suplemento.
8. Como fazer escolhas mais informadas?
Ao escolher um suplemento alimentar, vale a pena considerar:
- A função dos ingredientes: perceber a finalidade dos ingredientes ativos e dos excipientes.
- A quantidade utilizada: quando disponível, avaliar a dose diária e não apenas a presença de um ingrediente.
- A tolerância individual: ter atenção a ingredientes que possam desencadear sintomas digestivos ou outros efeitos indesejáveis.
- A transparência do rótulo: verificar a composição, a dose recomendada e as informações do fabricante.
- A qualidade global do produto: considerar a rastreabilidade, os controlos de qualidade e a conformidade regulamentar.
Uma lista de ingredientes mais curta pode ser uma preferência pessoal, mas não garante, por si só, maior segurança ou eficácia. Da mesma forma, a presença de um aditivo autorizado não demonstra, por si só, que um suplemento tenha qualidade superior.
Conclusão
Nem todos os aditivos e excipientes representam motivos de preocupação. Alguns ingredientes levantam questões específicas de segurança, outros podem provocar efeitos dependentes da dose ou da sensibilidade individual, e vários excipientes comuns apresentam avaliações tranquilizadoras nas condições estudadas.
O mais importante é interpretar a evidência científica no seu contexto, distinguir perigo de risco e avaliar a composição, as quantidades e a qualidade global do suplemento, em vez de considerar automaticamente prejudicial qualquer ingrediente com um nome pouco familiar.
Quer saber como interpretar o rótulo de um suplemento?
No próximo artigo do nosso Guia de Saúde, explicamos como ler o rótulo de um suplemento alimentar, identificar os ingredientes ativos e os excipientes, interpretar as doses e perceber que informações deve verificar antes de escolher um produto.
Leia também: [Como Ler o Rótulo de um Suplemento Alimentar →]
Referências científicas e regulamentares
(1) Dióxido de titânio
EFSA Panel on Food Additives and Flavourings. Safety assessment of titanium dioxide (E171) as a food additive. EFSA Journal. 2021;19(5):6585.
Regulamento (UE) 2022/63 da Comissão.
(2) Maltodextrina
Almutairi R et al. Validity of food additive maltodextrin as placebo and effects on human gut physiology: systematic review of placebo-controlled clinical trials. European Journal of Nutrition. 2022;61:2853–2871.
(3) Sorbitol e outros polióis
Lenhart A, Chey WD. A Systematic Review of the Effects of Polyols on Gastrointestinal Health and Irritable Bowel Syndrome. Advances in Nutrition. 2017;8(4):587–596.
(4) Edulcorantes não nutritivos e tolerância à glicose
Suez J et al. Personalized microbiome-driven effects of non-nutritive sweeteners on human glucose tolerance. Cell. 2022;185(18):3307–3328.e19.
(5) Sucralose
Méndez-García LA et al. Ten-Week Sucralose Consumption Induces Gut Dysbiosis and Altered Glucose and Insulin Levels in Healthy Young Adults. Microorganisms. 2022;10(2):434.
(6) Aditivos alimentares e microbiota intestinal
Gonza I et al. Food additives impair gut microbiota from healthy individuals and IBD patients in a colonic in vitro fermentation model. Food Research International. 2024;182:114157.
(7) Celulose microcristalina e outras celuloses
EFSA Panel on Food Additives and Flavourings. Re-evaluation of celluloses (E 460(i), E 460(ii), E 461–E 466, E 468 and E 469) as food additives. EFSA Journal. 2018.
(8) Sais de magnésio de ácidos gordos (E470b)
EFSA Panel on Food Additives and Flavourings. Re-evaluation of sodium, potassium and calcium salts of fatty acids (E 470a) and magnesium salts of fatty acids (E 470b) as food additives. EFSA Journal. 2018.
(9) Estearato de magnésio e genotoxicidade
Hobbs CA et al. Magnesium stearate, a widely-used food additive, exhibits a lack of in vitro and in vivo genotoxic potential. Toxicology Reports. 2017;4:554–559.
(10) Dióxido de silício (E551)
EFSA. Reavaliação do dióxido de silício (E551), publicada em 2024.





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