Os suplementos alimentares podem conter diferentes tipos de ingredientes, cada um com uma finalidade específica. Para além dos nutrientes e de outras substâncias com efeito nutricional ou fisiológico, podem incluir ingredientes que facilitam o fabrico, contribuem para a estabilidade ou melhoram as características do produto.
Compreender as diferenças entre estes ingredientes ajuda-nos a interpretar melhor os rótulos dos suplementos alimentares e a fazer escolhas mais informadas.
1. O que são os outros ingredientes dos suplementos alimentares?
Num suplemento alimentar, existem ingredientes que fornecem nutrientes ou outras substâncias com efeito nutricional ou fisiológico e outros que desempenham funções tecnológicas.
Estes últimos podem, por exemplo, facilitar o fabrico, melhorar a estabilidade, ajudar a conservar determinadas características físicas ou tornar o produto mais fácil de utilizar.
Em alguns contextos, estes outros ingredientes são designados por excipientes, embora este termo seja mais habitual na área dos medicamentos. Nos suplementos alimentares, é importante distinguir os diferentes tipos de ingredientes, uma vez que nem todos os excipientes ou outros ingredientes são aditivos alimentares.
2. Que funções desempenham os outros ingredientes?
Os ingredientes utilizados nos suplementos alimentares podem desempenhar diferentes funções tecnológicas, dependendo da composição e da forma de apresentação do produto, como comprimidos, cápsulas, pós ou líquidos.
Entre as funções mais comuns encontram-se as seguintes.
Agentes de volume ou diluentes
Aumentam o volume da formulação, sobretudo quando a quantidade dos restantes ingredientes é pequena. Ajudam a obter comprimidos ou cápsulas com dimensões adequadas e facilitam o fabrico.
Exemplos: celulose microcristalina (E460(i)), maltodextrina, farinha ou amido de arroz e fosfato dicálcico (E341(ii)).
Aglutinantes
Ajudam a unir os diferentes componentes de uma formulação, mantendo-os juntos na forma de comprimidos ou granulados.
Exemplos: amido, derivados de celulose e povidona (E1201).
Lubrificantes
Reduzem a aderência dos ingredientes às máquinas e aos moldes durante o fabrico, contribuindo para uma produção mais uniforme e eficiente.
Exemplos: estearato de magnésio (E470b), ácido esteárico (E570) e estearilfumarato de sódio.
Antiaglomerantes
Evitam ou reduzem a formação de grumos nos ingredientes em pó, ajudando a manter a sua fluidez e facilitando o processamento.
Exemplos: dióxido de silício (E551), silicatos de cálcio (E552) e talco (E553b).
Desagregantes
Ajudam os comprimidos a desfazerem-se após a ingestão, facilitando a sua desintegração.
Exemplos: croscarmelose sódica (E468), glicolato de amido sódico e crospovidona (E1202).
Edulcorantes
Conferem um sabor doce ao suplemento alimentar, podendo permitir a redução ou a substituição do açúcar.
Exemplos: glicosídeos de esteviol (E960), sucralose (E955), sacarina (E954), xilitol (E967), acessulfame K (E950) e sorbitol (E420).
Corantes
Conferem cor ao suplemento alimentar ou ajudam a uniformizar a sua aparência, podendo também facilitar a distinção entre diferentes formulações.
Exemplos: clorofilas e clorofilinas (E140), curcumina (E100) e carvão vegetal (E153).
Aromatizantes
Conferem, modificam ou reforçam o aroma e o sabor de um suplemento alimentar, tornando-o potencialmente mais agradável ao consumo.
Materiais das cápsulas e agentes de revestimento
Os materiais das cápsulas formam a estrutura exterior que envolve o conteúdo, enquanto os agentes de revestimento podem formar uma camada protetora sobre os comprimidos ou outras formas de apresentação.
Exemplos de materiais de cápsulas: gelatina, hidroxipropilmetilcelulose (HPMC) e pululano.
A gelatina é de origem animal. A HPMC e o pululano podem ser utilizados no fabrico de cápsulas adequadas a produtos vegetarianos ou veganos, dependendo da composição completa do produto.
Reguladores da acidez
Controlam ou ajustam a acidez de uma formulação, contribuindo para manter o pH pretendido e, em determinados produtos, para ajustar o sabor.
Exemplo: ácido cítrico (E330).
3. O que são aditivos alimentares?
Nem todos os ingredientes utilizados no fabrico de suplementos alimentares são classificados como aditivos alimentares. A classificação depende da natureza da substância, da função com que é utilizada e da legislação aplicável.
Por exemplo, entre os ingredientes utilizados para aumentar o volume de uma formulação, a celulose microcristalina (E460(i)) é um aditivo alimentar quando utilizada com essa finalidade tecnológica. Já a maltodextrina e a farinha de arroz são ingredientes alimentares e não são, por si só, classificados como aditivos alimentares.
Na União Europeia, os aditivos alimentares são avaliados cientificamente quanto à sua segurança pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), no âmbito das suas competências. A autorização e as condições de utilização são estabelecidas ao abrigo da legislação europeia aplicável.
Por isso, um aditivo só pode ser utilizado nas categorias de alimentos e nas condições previstas na legislação. A existência de um número E não significa que a substância esteja autorizada para qualquer utilização ou em qualquer quantidade.
Na rotulagem, os aditivos alimentares são geralmente identificados pela respetiva categoria funcional, seguida do nome específico do aditivo ou do seu número E.
Exemplo: antiaglomerante: dióxido de silício ou antiaglomerante: E 551.
Ingredientes comuns nos suplementos alimentares
A tabela seguinte apresenta exemplos de ingredientes que podem ser utilizados em suplementos alimentares comercializados na União Europeia, de acordo com a formulação e as disposições legais aplicáveis.
| Função | Ingrediente — exemplo | O que faz | O que considerar |
|---|---|---|---|
| Agente de volume | Celulose microcristalina (E460(i)), maltodextrina ou farinha de arroz | Contribui para o volume e a estrutura da formulação | Nem todos os agentes de volume são aditivos alimentares. |
| Lubrificante | Estearato de magnésio (E470b) | Reduz a aderência dos ingredientes às máquinas durante o fabrico | A sua presença, por si só, não indica falta de qualidade. |
| Antiaglomerante | Dióxido de silício (E551) | Ajuda a evitar a formação de grumos nos pós | A sua utilização depende da formulação e das condições legais aplicáveis. |
| Desagregante | Croscarmelose sódica (E468) | Ajuda os comprimidos a desintegrarem-se após a ingestão | Desempenha uma função tecnológica, não nutricional. |
| Material de cápsula | Gelatina ou hidroxipropilmetilcelulose (HPMC) | Forma a estrutura exterior da cápsula | A gelatina é de origem animal; a HPMC pode ser utilizada em cápsulas vegetarianas ou veganas. |
| Edulcorante | Sorbitol (E420), sucralose (E955) ou acessulfame K (E950) | Confere sabor doce | Alguns edulcorantes, como os polióis, podem provocar desconforto gastrointestinal, dependendo da substância e da quantidade consumida. |
| Regulador da acidez | Ácido cítrico (E330) | Ajusta a acidez da formulação | A sua função depende das características do produto. |
Nota: os números E identificam aditivos alimentares específicos. A sua utilização está sujeita às condições estabelecidas na legislação europeia, incluindo as categorias de alimentos autorizadas e os limites aplicáveis, quando previstos.
4. Quem regula os ingredientes dos suplementos alimentares na União Europeia?
A regulamentação dos ingredientes utilizados nos suplementos alimentares depende da sua natureza, função e utilização. Não existe um único diploma europeu que regule todos estes ingredientes.
Na União Europeia, os suplementos alimentares são considerados géneros alimentícios e estão sujeitos à legislação alimentar europeia. A Diretiva 2002/46/CE estabelece regras específicas para estes produtos, incluindo disposições relativas às vitaminas e aos minerais que podem ser utilizados e às respetivas fontes.
Para além desta diretiva, aplicam-se outras disposições consoante a categoria do ingrediente e a sua função. Por exemplo, os aditivos alimentares e os aromatizantes estão sujeitos a regras específicas, enquanto outras substâncias com efeitos nutricionais ou fisiológicos podem estar abrangidas por diferentes enquadramentos regulamentares.
Entre os principais diplomas europeus encontram-se:
-
Diretiva 2002/46/CE — Suplementos alimentares. Estabelece regras específicas para os suplementos alimentares, incluindo disposições relativas às vitaminas e aos minerais.
Consultar a Diretiva 2002/46/CE -
Regulamento (CE) n.º 1333/2008 — Aditivos alimentares. Define as regras aplicáveis à autorização e à utilização dos aditivos alimentares, incluindo as condições relativas às categorias de alimentos.
Consultar o Regulamento (CE) n.º 1333/2008 -
Regulamento (UE) n.º 231/2012 — Especificações dos aditivos alimentares. Estabelece especificações de identidade e pureza para os aditivos abrangidos pelo regulamento.
Consultar o Regulamento (UE) n.º 231/2012 -
Regulamento (CE) n.º 1334/2008 — Aromatizantes. Estabelece regras relativas aos aromatizantes utilizados nos géneros alimentícios.
Consultar o Regulamento (CE) n.º 1334/2008 -
Regulamento (CE) n.º 178/2002 — Legislação alimentar geral. Estabelece os princípios gerais da legislação alimentar, incluindo os requisitos de segurança dos géneros alimentícios e as responsabilidades dos operadores.
Consultar o Regulamento (CE) n.º 178/2002
Para consultar informação científica sobre a segurança dos aditivos alimentares, pode também visitar o site da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA).
Consultar o site oficial da EFSA
Conclusão
Os suplementos alimentares podem conter, para além de nutrientes e de outras substâncias com efeito nutricional ou fisiológico, ingredientes que facilitam o fabrico, contribuem para a estabilidade ou conferem determinadas características ao produto.
Estes ingredientes podem desempenhar diferentes funções, como aumentar o volume, evitar a formação de grumos, facilitar a desintegração dos comprimidos ou melhorar o sabor. No entanto, nem todos são classificados como aditivos alimentares, uma vez que a classificação depende da natureza da substância, da sua função e da legislação aplicável.
Compreender estas diferenças ajuda a interpretar a lista de ingredientes e a comparar suplementos alimentares de forma mais informada. A presença de um aditivo ou excipiente não significa, por si só, que o produto seja prejudicial ou tenha menor qualidade. Para avaliar a segurança, é necessário considerar o ingrediente específico, a quantidade utilizada, as condições de utilização e a evidência científica disponível.
Os aditivos e excipientes dos suplementos alimentares são seguros?
Conhecer a função dos aditivos e excipientes é apenas o primeiro passo. Mas será que estes ingredientes podem ter efeitos na saúde? O que dizem os estudos científicos sobre a sua segurança?
No próximo artigo, analisamos a evidência científica sobre alguns dos ingredientes mais utilizados nos suplementos alimentares e explicamos o que devemos ter em conta ao avaliar os seus possíveis efeitos na saúde.
Leia o próximo artigo: [Os Aditivos e Excipientes dos Suplementos Alimentares São Seguros? O Que Diz a Ciência]





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